polícia bom/polícia mau ou como os desempregados deixam de contar para as estatísticas

Na semana passada, fui convocado pelo IEFP para uma sessão de reavaliação da minha situação de desemprego e, citando, “(…) eventual reajustamento do seu Plano Pessoal de Emprego.”. Numa primeira leitura, tudo indicava que me iria reunir com um técnico especializado que, após cuidadosa avaliação do CV e candidaturas enviadas, ajudaria a rever a minha abordagem para aumentar as hipóteses de reingresso no mercado de trabalho. Estando habituado aos malabarismos textuais do IEFP, sabia que esta hipótese era remota e que o mais provável era ser informado que, tal como tantos outros, iria ser reencaminhado para uma acção de formação, cumprindo assim as directivas do ministro da Economia e do Emprego, divulgadas em Junho na comunicação social (ver notícia do DN aqui).

A surpresa dissipou-se e as minhas suspeitas confirmaram-se: a convocatória não tinha como objectivo reajustar, mas sim informar que todas as pessoas desempregadas há mais de seis meses seriam integradas em acções de formação, com a “boa notícia” adicional que, agora, também os licenciados poderiam ser integrados no programa Vida Ativa (que, surpreendentemente, até à data não há informação disponível na página do IEFP). Poderia ser uma excelente notícia, não fosse o pequeno pormenor de que todos os desempregados inscritos em formação ficam com o respectivo processo suspenso e, como consequência, deixam de ser considerados nas estatísticas que visam divulgar o número/percentagem de desempregados. Ou seja, é uma faca de dois gumes: por um lado, os desempregados têm a possibilidade de beneficiar de formação gratuita, mas, por outro, distorcem-se os dados estatísticos para possamos aproveitar as férias de Verão, sem estarmos sempre a ser bombardeados com a dura realidade do país.

A medida, em si, não me espanta. Também não alimento a ilusão que os corredores dos Centros de Emprego são percorridos por pessoas dedicadas a ajudar o desempregado a reintegrar o mercado de trabalho – e, pelo que me foi dito na sessão, nem os órgãos directivos, que se preparam para acabar com a função dos conselheiros de orientação profissional. A sessão podia ter sido mais curta e menos interessante, não fosse pelas vozes descontentes que se fizeram ouvir (entre elas, a minha) perante o que estava a ser “oferecido”. Porque, verdade seja dita, as únicas pessoas que tiveram alguma hipótese de escolha foram as não-licenciadas, que puderam dar o seu parecer, relativamente à acção de formação que consideravam mais adequada; para os (três) licenciados presentes, a escolha foi óbvia: ou o programa Vida Ativa, ou o programa Vida Ativa.

Interessante, também, foi a dinâmica clara de polícia bom/polícia mau desempenhada, respectivamente, pela representante do Centro de Formação onde decorreu a sessão e pela representante (vejo pela carta que era, nada mais, nada menos, que a própria directora) do Centro de Emprego. A primeira demonstrou uma sensibilidade evidente perante tudo o que estava a ser exposto e, parece-me, gostou bastante do debate e demonstração clara de direito à opinião, numa sociedade que se diz democrática. A segunda, por outro lado, mostrou-se incomodada quando confrontada com a necessidade de justificar uma medida que, leitura minha, considera mais do que adequada e necessária. Aproveito, na eventualidade da senhora directora passar por aqui, para esclarecer que a expressão correcta é “muro das lamentações” e não “mar das lamentações”, e que se espera de uma psicóloga, com vinte anos de experiência no cargo, uma maior abertura para lidar com verdades inconvenientes e uma audiência descontente, e não uma postura agressiva, arrogante e digna de uma criança birrenta, que trata mal os outros quando não lhe fazem as vontades.

Considero a formação uma mais-valia para qualquer profissional mas parece-me pouco louvável utilizá-la para “tapar o sol com a peneira”, mais ainda por ter sérias dúvidas (reforçadas pela falta de coerência demonstrada pela representante do Centro de Emprego) acerca da sua adequação ao perfil profissional e necessidades formativas de cada pessoa. Para além disto, acho vergonhoso e uma absoluta perda de tempo este circo burocrático, dando ao desempregado a ilusão de escolha quando ela não existe, pois a formação promovida pelo IEFP é de carácter obrigatório para quem quer continuar a receber apoio do estado.

Gostava muito de pensar que não nos estamos a encaminhar para o cenário vivido há uns anos atrás, em que milhares de desempregados estavam devidamente camuflados em acções de formação, não sendo contabilizados para efeitos estatísticos. Com isto, ganhámos a falsa noção de segurança e de que as coisas não estavam assim tão más. Infelizmente, esgotados os fundos para formação, a única hipótese foi publicar os números reais (que, entenda-se, apenas contabilizam quem está inscrito nos Centros de Emprego, deixando de fora todos os que estão em situação precária ou ilegal), estilhaçando a ilusão de conforto do nosso cantinho à beira-mar.

Resta-me esperar por nova convocatória e, enquanto actualizo os blogs e envio candidaturas, alimentar a esperança que (dada a fraca probabilidade de terem em conta as áreas de formação que considerei fundamentais, para o meu desenvolvimento profissional) me venham a propor uma formação em pastelaria ou algo do género, quem sabe o meu futuro não reside nas delícias açucaradas.

{Dúvidas? Sugestões? Fiquem à vontade para se fazerem ouvir nos comentários!}

2 comments

  1. André

    Olá,

    Eu estava aqui a ler sobre o programa “Vida Ativa” porque também fui convocado para uma ação de formação e no momento só pensei que se tinham enganado e que ia resolver a situação.
    Dirigi-me ao gabinete que representa o Centro de Emprego na minha área e disseram-me para aparecer no local da formação e falar com a pessoa responsável que se mostrou muito intolerante, pouco compreensiva e arrogante. A minha razão para não querer frequentar a formação é porque se trata de Inglês básico e eu já passei essa fase há varios anos, como é normal pois estudei até me Licenciar e sempre tive Inglês e mesmo hoje em dia comunico com frequência em Inglês. A pessoa com quem falei, apenas dizia que se eu preenchesse o papel a recusar frequentar com aquela justificação ia ficar com a minha inscrição no centro de emprego anulada mas que eu é que sabia, “tinha a faca e o queijo na mão”, por ela era igual pois pagavam-lhe exactamente ao fim do mês. Repetiu isso umas 2 ou 3 vezes… sempre muito arrogante até no modo como se referiu a uma outra pessoa que me atendeu por telefone no Centro de emprego ( e entendeu a inadequabilidade da ação de formação no meu caso) referindo-se a ela como “ela é uma simples funcionária, uma recepcionista..” pondo em causa o que a Sra me tinha respondido.
    Depois de tudo isto ainda meteu na conversa a formadora que não tem culpa de nada e que nem sabia bem o que dizer. Para não arriscar nada decidi ir à primeira sessão da formação e estavam presentes umas 14 pessoas sendo que quando a formadora lhes perguntou qual era o nível de conhecimentos de Inglês todos disseram “Zero”, “Quase zero”. Apercebi-me depois das apresentações que sou o unico Licenciado e com conhecimentos de Inglês (que considero que são bons). Fui ver o que é o programa vida ativa e vi que é para toda a gente basicamente, mas prioritáriamente para pessoa com escolaridade até o 9º ano e a receberem subsidio de desemprego e em caso de ser relevante para a area profissional da pessoa. Ora, nenhuma dessas 3 condições prioritárias se verifica no meu caso.
    De qualquer maneira enviei um email para o centro de emprego, para a directora e estou a aguardar uma resposta. Sou apologista de que proponham formações aos desempregados mas desde que sejam adequadas a cada caso e o que me aparece é que as formações estão a ser distribuidas sem ter cuidado com a compatibilidade/não compatibilidade do CV de cada pessoa e é frustrante perceber isso e não poder dizer NÃO.
    O que me está a apetecer é ir para a formação e não fazer nenhum, mas lá está, a formadora não tem culpa nenhuma e ia ser chato.
    Mas deve haver muitas mais pessoas a ser postas nesta situação.

    Obrigado, gostei de ver a tua opinião.
    Boa sorte

    • Filipe Bernardes

      Olá, André, e obrigado, também, por teres partilhado a tua história. Infelizmente, esta é uma situação demasiado comum e a única coisa que te posso sugerir, uma vez que és obrigado a ir à formação (uma vez que recebes o subsídio de desemprego), é seres honesto com a formadora e dizer que os teus conhecimentos são mais do que superiores aos exigidos por aquela formação, e apresentares uma reclamação formal no Centro de Emprego da tua área de residência. Espero que corra tudo pelo melhor e boa sorte🙂

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